sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O PEQUENO PRÍNCIPE - EBOOK

Periodicamente, o blog Verso, Prosa & Rock'n'Roll disponibilizará para download gratuito obras em formato eBook para leitores digitais do tipo Kindle e Kobo. As obras vão desde autores iniciantes até grandes clássicos da literatura. Veja o nosso catálogo clicando AQUI. Baixe o quanto quiser! (Os links para download estão logo abaixo das capas).

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS


No dia 25/07/2017, a Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina publicou o edital do 26º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos.

Nesta edição, a comissão organizadora será composta exclusivamente por membrosda Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina. Portanto, para esclarecer qualquer dúvida a respeito do concurso o candidato deverá entrar em contato através dos e-mails e telefones que constam no edital.

Atenção: é importante a leitura completa do Edital antes de fazer a inscrição.

Principais informações:


· Período de inscrição: de 07 de agosto de 2017 (a partir das 8 horas) ao dia 01 de setembro de 2017 (até 18 horas);

· Preencher a Ficha de Inscrição online e a Ficha de Inscrição anexa ao edital com as mesmas informações;

· A Ficha de Inscrição e as 5 vias da poesia deverão ser entregues diretamente no Museu Espaço dos Anjos (endereço no Edital), ou enviadas via correio, sempre dentro do período de inscrição;

· Divulgação das 20 poesias finalistas: 30 de outubro de 2017;

· Cerimônia de premiação: 10 de novembro de 2017.

Atenciosas Saudações,

Nilza Cantoni - Segunda Secretária

Leopoldina, MG

terça-feira, 1 de agosto de 2017

AUTOPSICOGRAFIA - ANÁLISE E COMENTÁRIO


por Jean Pires de Azevedo Gonçalves

Autopsicografia
                                   
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

“Autopsicografia” é um dos poemas de Fernando Pessoa ele mesmo, isto é, não assinado pelos poetas personagens que ele criou, os célebres heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, mas, sim, pelo próprio autor (ortônimo).

Esta distinção é importante para iniciar a análise do poema, pois “Autopsicografia” é atribuído à pessoa do poeta Fernando Pessoa sem máscaras, isto é, sem suas personas, que adquiriram autonomia e, digamos assim, vida própria.

Portanto, “Autopsicografia” deveria ser bem revelador a respeito da personalidade do autor dos poetas heterônimos. Talvez os versos do poema decifrassem o enigma da pessoa que em sua criação poética se esquiva de uma apresentação de si para, por fim, dizer algo de si através de outro – ou outros.

Literalmente, o título significa uma “descrição do próprio Eu” (ou da mente, psique, alma). [Nota: Aqui descarto uma interpretação possível do termo “psicografia” relacionado à religião espírita, tendo em vista o fato de Fernando Pessoa ser discípulo do mestre Caeiro].

Neste sentido, o poema deveria desvendar o verdadeiro Eu do poeta Fernando Pessoa sob suas múltiplas manifestações que se desdobram no Eu lírico dos heterônimos. Algo como uma interpretação autopsicanalítica da natureza íntima do poeta que emerge das profundezas à consciência. Mas não. Nenhuma confissão; nenhum segredo desvendado.

De início, estas nossas expectativas são frustradas. As cartas não são abertas sobre a mesa.

O poeta...

Não é Pessoa mas um genérico poeta.

Aparentemente, Fernando Pessoa se vale de um ardil ao se omitir na figura de um poeta impessoal, ou melhor, de um conceito.

Seria então o poeta mais um de seus heterônimos?

Sem dúvida, tenho uma profissão, sou professor, mas, quando quero dizer algo sobre minha pessoa, não me refiro jamais a mim mesmo como professor, a não ser numa entrevista de emprego... A profissão, para dizer com os existencialistas, é uma das minhas muitas essências e não minha existência autêntica, que é livre, e, sendo livre, pode escolher entre diversas essências: garçom, filósofo, camponês, engenheiro, médico, professor, músico, escritor, poeta etc. Negar-se à liberdade inerente da existência, reduzindo-a a uma essência pré-estabelecida socialmente, é, para os existencialistas, um ato de má-fé.

Assim sendo, estaria agindo Fernando Pessoa de má-fé, ao se apresentar na figura de poeta quando aparentemente prometia revelar uma verdade sobre si mesmo, o seu Eu autêntico?

A resposta é não. Em Fernando Pessoa poeta não é uma essência, entre muitas, mas a existência concreta. Em última instância, Fernando Pessoa é que é uma ficção, um heterônimo do ser que é poeta.

Entretanto, ainda mais escandaloso do que a ardilosa “trapaça” de Fernando Pessoa em se apresentar na figura de um poeta genérico é como o poeta define o poeta:

...é um fingidor

Não este ou aquele poeta, mas todo poeta é um fingido. Portanto, uma sentença universal e necessária.

Todavia, tal sentença não é um axioma. Fingidor não é uma qualidade inerente ao poeta, mas possivelmente um de seus muitos atributos.

Se não fosse muito descabido recorrer à lógica num comentário de um poema, e nos fosse concedido a licença para tanto, a frase “o poeta é um fingidor” não é de inerência, ou seja, do conceito de poeta não se infere imediatamente fingidor. Somente através da negação interna do poeta pode se construir a identidade do poeta enquanto fingidor:

“O poeta [não é o poeta, mas] é um fingidor”.

O que significa dizer que a verdadeira face do poeta é a de um enganador, um mentiroso, um impostor, um farsante, um hipócrita, um embusteiro... enfim!

O poeta, justamente o poeta, tido como aquele que melhor expressa a autenticidade das emoções! Sim, o poeta: sensível, verdadeiro, visionário, “antena da raça” (Erza Pound).

Nada disso! O poeta Fernando Pessoa ensina categoricamente o inverso: o poeta é um fingidor... um mentiroso!

Mas “fingidor”, muito embora um atributo contingente, é uma característica geral do poeta em geral. Afirmar isso, no entanto, carece de uma demonstração mais detida. Vejamos:

[O fingidor] Finge tão completamente

Dando prosseguimento a análise lógica, a frase “o fingidor finge” é de inerência lógica, porque fingidor pressupõe necessariamente aquele que finge. Ora, afirmar que o fingidor mente nada acrescenta ao que já sabemos, não sendo senão uma redundância. O que disso resulta, e não podia ser diferente, é que o fingimento de quem finge não poderia deixar de ser pleno, total, completo.

Porém, agora vem a grande sacada de Fernando Pessoa. O fingidor não finge qualquer coisa, mas:

Finge [tão completamente
Que chega a fingir] que é dor
[A dor] que deveras sente.

Rigorosamente, o fingidor não sente dor, apenas simula a dor:

A dor que [o poeta] deveras sente.

Do que se conclui:

“O poeta é um finge-dor”.

Há aqui uma relação de identidade que só se constitui pela dor e, daí, pela contradição entre a não dor (dor fingida, dissimulada) e a dor (dor verdadeira, autêntica).

Por outro lado, se retomássemos a intenção implícita no título, não seria absurdo afirmar que o poeta não é a pessoa do poeta mas, ao fingir a dor do poeta, o poeta só pode sentir a dor da pessoa do poeta enquanto fingidor.

Logo, o poeta é a mesma pessoa que finge a sua própria dor.

Estes versos nos enchem de assombro. Como pode o poeta fingir algo que lhe é real? Como pode o poeta, ainda que fingidor, ter duas dores, uma autêntica e outra fingida e as duas serem, afinal, a mesma dor (da pessoa do poeta)?

Ao que parece, Fernando Pessoa está dialogando com a tradição literária que remonta à Arte Poética de Aristóteles e seus antecessores, tendo por conceitos chaves techne, poiesis e mimesis.

Estas palavras têm sido comumente traduzidas por “arte” (techne) (a tradução mais precisa é “conhecimento específico”), “criação” (poiesis) e “imitação” (mimesis):

Caberia ainda aqui esclarecer, para aqueles que gostam de etimologia, o sentido original de “fingir”, pois este, de certo modo, guarda alguma relação de conteúdo com os termos citados.

A palavra “fingir” vem do latim fingire, de fingo (terceira conjugação), e seu sentido primordial é “formar”, “amassar” [a massa], do qual radica do proto-indo-europeu, *dʰeyǵʰ-: “moldar”.

A palavra latina fingo também deu origem as palavras figura e ficção.

Portanto, “fingir” é essencialmente modelar, tal qual o ofício de um oleiro, que trabalha o barro na roda e produz objetos de cerâmicas, como cântaros, tijolos, jarros etc.

Já acepção grega de poesia, de ποίησις ou poiesis (poíēsis), no latim poesis, significa “criação”, “produção”, “composição”. Deriva do verbo ποιέω (poiéō), “fazer”. Daí poeta ποιητής (poiētḗs): fazedor, compositor, criador, autor.

Em Aristóteles, o conceito de poiesis refere-se à produção verbal ou criação literária. (Provavelmente, porque, desde Platão, pelo menos, este sentido já estava consagrado).

Para Aristóteles, “(...) o poeta deve ser mais um criador de narrativas (roteiros) do que de versos, na medida em que é poeta devido à imitação, e esta sua imitação é das ações” (Poética).

Ainda Aristóteles: “A poesia épica e a trágica, bem como a cômica e a ditirâmbica e a maioria da interpretação com flauta e instrumentos de cordas dedilhados são todas, encaradas como um todo, tipos de imitação. Diferem, entretanto, entre si, em três aspectos, a saber, nos meios, nos objetos ou nos modos de imitação” (Poética).

Platão, no entanto, não se contenta em pensar a arte pura e simplesmente. O filósofo faz um juízo de valor sobre ela; um valor pejorativo.

Em sua “República”, Platão idealiza uma cidade perfeita, governada apenas por filósofos, que a administram através da ciência (episteme), discurso que versa sobre conceito (logos) e a verdade, que, para Platão, é indissociada de utilitarismo. A arte, ao contrário, é supérflua por ser imitação (mimesis) – da verdade, portanto, simulacro, falsidade – um pintor, por exemplo, não precisa conhecer o ofício de fazer sapatos para desenhar um sapato. Neste sentido, a arte que desvia da verdade e ilude deve ser censurada numa sociedade de sábios que buscam a verdade. E, para Platão, a arte por excelência própria a sofismas é a poesia. Por conseguinte, na República de Platão, Sócrates expulsa os poetas da cidade:

“Aqui está o que tínhamos a dizer, ao lembrarmos de novo da poesia, por, justificadamente, excluirmos da cidade uma arte desta espécie. (...) mesmo assim, diga-se que, se a poesia imitativa voltada para o prazer tiver argumentos para provar que deve estar presente numa cidade bem governada, a receberemos com gosto, pois temos consciência do encantamento que sobre nós exerce, mas seria impiedade trair o que julgamento ser verdadeiro. Ou não sentes também seduzido pela poesia, meu amigo, sobretudo quando contemplas através de Homero?” (PLATÃO, A República).

De tudo que foi dito, poderíamos dizer que em Pessoa o poeta é um imitador (fingidor), ou melhor, um artesão que molda palavras, matéria-prima da criação poética.

A dor do poeta é então a palavra “dor”, dita ou escrita, não a dor em si.

Na verdade, Fernando Pessoa vai contra a ideia platônica de que imitação é falsidade. A dor criada, moldada, dita, escrita, lida, à parte e pelo poeta, é de fato a verdade verdadeira.

O poeta não é como o ator que interpreta um papel e que depois da encenação retoma a sua vida cotidiana, completamente diversa da do personagem interpretado.

Não, o poeta é Édipo que interpreta a sua própria tragédia e que por traz de sua máscara de tristeza há uma face totalmente consternada por uma dor não menos profunda.

Andamos em círculos!!!

De volta ao paradoxo: a dor sentida pelo poeta e a dor fingida pelo poeta são a mesma dor. (Lembro-me das aulas de dialética: A é A não são idênticos, porque a repetição já introduz uma mínima diferença que é elevada à enésima potência - Deleuze).

A palavra “dor” não é dor mas um simulacro tão verdadeiro quanto dor verdadeira.

Na segunda estrofe, algo ainda mais chocante: o poeta se metamorfosea num terceiro: “os que leem”...

E os que leem o que escreve [a dor escrita],
Na dor lida sentem bem (...)

Mais uma vez Fernando Pessoa surpreende. A conexão entre poeta e leitor não se faz pela dor do poeta, e, sim, pela dor fingida. Esta tem uma dupla determinação: escrita e lida. A dor lida é um momento da dor escrita. E a dor lida é tão sentida (completamente) como a dor escrita; mas não é a dor do poeta tampouco a do leitor.

Não as duas que ele [o poeta] teve,
Mas só a que eles [leitores] não têm.

Acontece que, por uma lei da empatia ou alteridade, para sentir a dor do poeta, por meio de suas mediações negativas, escrita ou lida (dita ou ouvida), o leitor deve ter uma dor exatamente igual à dor do poeta. Porém, o leitor não é o poeta e, portanto, sua dor não é a do poeta.

Em termos dialéticos, há dois polos contraditórios: o poeta e o leitor. Pois somente negando o poeta, o leitor pode sentir a dor do poeta, e, sentindo a dor do poeta, o leitor é o poeta e, portanto, também é um fingidor.

Se retomássemos o exemplo de Édipo, seria quase como dizer que Édipo assiste da plateia do anfiteatro a representação de sua vida em cena, sendo ele próprio o ator. O protagonista é ao mesmo tempo dois: ator-espectador; e um terceiro: ele é ator e espectador sem ser realmente nenhum dos dois.

Portanto, Fernando Pessoa não compõe sozinho. O leitor é coautor. Dito de outro modo, Fernando Pessoa descobre no leitor não um mero interlocutor passivo, mas um criador do sentido da poesia que se aparta e ganha autonomia de ambos.

Na terceira e última estrofe, Fernando Pessoa novamente renuncia a interferência da pessoa do poeta e, aparentemente, engendra uma descontinuidade em relação às estrofes anteriores.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Aqui há uma clara antinomia entre emoção e razão. A razão é entretida pelo coração. A palavra “entreter” é polissêmica, possuindo vários sentidos. Dentre eles: deter, manter, conservar, divertir, distrair, iludir etc. Seu sentido mais cru é simplesmente entre + ter. O que, no fundo, se depreende de todos estes significados é que a razão é dominada pela emoção.

E este é o gancho que liga indiretamente a última estrofe às duas anteriores.

A lógica não entende as coisas do coração que tem uma lógica própria alógica.

Esta estrofe poderia ser perfeitamente bem interpretada como a notória frase de Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Nota-se que Fernando Pessoa denomina o coração com a expressão comboio de corda, uma analogia claramente mecânica, que subjaz um sentido materialista ou físico do sentimento. O coração é uma máquina.

Muitos veem nesta imagem a figura de um trem de brinquedo rodando sobre trilhos. Eu prefiro a imagem de um relógio de corda, com seu sistema de rodas, girando e pulsando, num constante tic-tac. Vale lembrar a raiz etimológica da palavra “coração”, que tem origem no latim cor (coração, alma, mente), da terceira conjugação, neutro, do caso nominativo (acusativo e vocativo), singular - sua forma plural, nos respectivos casos, é corda. Talvez, Fernando Pessoa tenha feito um trocadilho com a palavra “corda”, do latim chorda, que significa fio, fibra, corda – daí acorde musical (em inglês “chord”), das cordas da lira. Na lírica de Fernando Pessoa, a música é dissonante.

Da mesma raiz de cor vem também as palavras “acordar”, “acordo”, “concordar”, “concórdia”, “discórdia”, “cordial”, “cordato” etc.

Quando duas pessoas estão de acordo é porque, em seu sentido literal, seus corações batem juntos.

Portanto, o poeta fala a língua do coração, irredutível à razão, e que é capaz de concordar aquilo que está inerentemente em desacordo.

Para concluir, Fernando Pessoa rompe com a tradição socrático-platônica. Tal como Nietzsche, para o poeta, a mentira é a verdade e vice-versa. Da mesma forma, Pessoa rompe com o principium individuationis; em “Autopsicografia”, o poeta não é um indivíduo distinto, mas uma metamorfose de múltiplos Eus. A fronteira entre escritor e leitor é demarcada por uma tênue linha fictícia, geradora de ilusão. O que Fernando Pessoa nos ensina é que não há individualidade stricto sensu e, sim, que a personalidade é muito mais fluída e porosa do que nos quer fazer acreditar o pensamento racional. Somos fragmentos espalhados, contraditórios e misturados em um mundo tão caótico quanto nós mesmos.

Ao ler “Autopsicografia”, estamos diante de um Fernando Pessoa que reflete a nós mesmo como uma imagem num espelho. É sobre nós que versa o poema. O que não significa que não há integridade entre as múltiplas partes confusas. Fernando Pessoa alerta: “Sê inteiro”. Ou seja, ser íntegro é ser diferente.

*****

Jean Pires de Azevedo Gonçalves é autor de:



Disponíveis AQUI (link) 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

VIAGEM DE PABLO NERUDA NO BRASIL


NO BRASIL

No Rio visitei Burle Marx, o Conquistador da flora, Libertador de jardins, Herói Verde do Brasil, que com Niemeyer e Lúcio Costa formam a trilogia procriadora das cidades radiantes. Passeia-me sob folhas imensas, mostra-me raízes espinhosas que defendem sob a terra, troncos com pruridos, quermelias marmoratas, ilairinas misteriosas e especialmente o tesouro de suas bromélias, reconhecidas do Brasil profundo ou investigadas em Samatra. São quilométricas de esplendor nos quais florescem o escarlate, o amarelo, o violeta até voltarmos a casa com uma ninféa puríssima que vibra como um relâmpago azul nas mãos de Matilde.

Mas Jorge Amado chama-me de Salvador e voamos ao mercado da Bahia, para comer vatapá e beber cerveja na cidade encaracolada da magia. Como o fiz no Rio, torno a ler meus versos ao público aberto, moços e moças, e gravar centenas de autógrafos que me oprimem.

Percorro com Jorge os retorcidos entrepechos de Salvador, sob a luz perfurante. Subimos ao avião saturados de cítrico aroma da Bahia, da emancipação marinha, do fervor estudantil. Deixemos em baixo, na laje do aeroporto, os Amado: robusto, Jorge, sempre do Célia, Paloma e João: minha família no Brasil.

Ao ar! Ao amplíssimo celeste! Da altura: a cidade branca, a cidade Vênus: BRASÍLIA!

O deputado Márcio me abre todas as portas. Mas Brasília não tem portas: é espaço claro, extensão mental, claridade construída. Os setores comuns pululam de crianças, seus palácios dão dignidade inédita às instituições. O arquiteto Ítalo, companheiro de Niemeyer, já tem dez anos de Brasília e nos assinala o novo Itamaraty, o Congresso, o Teatro inconcluso, a Catedral, rosa férrea que abre na altura grandes pétalas para o infinito.

 Brasília , isolada em seu milagre humano, em meio do espaço brasileiro, é como uma imposição da suprema vontade criadora do homem. Daqui nos sentiremos dignos de voar aos planetas. Niemeyer é o ponto final de uma parábola que começa em Leonardo: a utilidade do pensamento construtivo: a criação como dever social: a satisfação espacial da inteligência.

DIÁRIO DE VIAGEM

De Ipanema, com azul oceano, ilhas e penínsulas, montes corcovados, trepidação circulatória, Vinícius de Moraes me leva a Belo Horizonte (imensa Antofagasta da meseta), em seguida a Ouro Preto, colonial e calcárea, com o ar mais transparente da América do Sul e uma basílica em cada um de seus dez cerros que se elevam como os dedos das mãos na reconcentrada mansuetude. Aqui vive Elisabeth Bishop, grande poetisa norte-americana que conheci há anos no alto de uma pirâmide de Chichén Itzá. Como não estava no Brasil, escrevi-lhe um pequeno poema em inglês, um poema com erros, como deve ser.

O libertador de escravos e independentista Tiradentes olha as igrejas de uma altíssima coluna, no centro da praça onde foi esquartejado. Tiradentes – Sacamuelas, porque era dentista – encabeçou uma revolução derrotada no coração clerical e escravista da monarquia. Agora o deixaram, pequeníssimo, numa coluna ridícula, encarapitado na glória, em lugar de o colocarem em meio à gente branca e negra que passeia na praça de Ouro Preto.

Mas em Congonhas, aonde chegamos para ver as estátuas de Aleijadinho, encontramo-nos de repente dentro de uma romaria com esses cânticos que, com voz de bronze, um sacerdote dirige do templo, e crianças, mulheres, vendedores de rua, a multidão, enfim, cantando ou comendo fritada, os pequenos sentados sobre os profetas de pedra de nosso Miguel Ângelo americano.

Cortando a pobreza, como se corta um queijo, aproximamos, e Matilde me fotografa com Isaias, com Daniel, com Ezequiel, e não me sinto mal ao lado de cada um, só que eles foram melhores poetas que eu e se mostram agora, em seus retratos de pedra, poderosos ou pensativos, iracundos ou adormecidos. Jonas tem um pequeno peixe, do qual apenas divisamos a cauda entre cabecinhas negras e brancas dos romeiros da romaria. Aproximo-me para ver se é uma sereia (que beleza seria ver um profeta na rede de uma filha do mar), mas não. Trata-se apenas de uma baleia, de sua baleia, que o Aleijadinho lhe pôs sorridente junto da cintura para que não a deixe esquecida nos vagões ferroviários do céu.

Mais tarde, através da tarde, cruzamos selvas, grandes rios, caminhos subitamente atravessado por uma borboleta Marpho, dando-nos uma calafrio azul, e árvores junto à estrada, cobertos de fogo escarlate, de frutas pendentes dos ramos como melancias aéreas, de montículos de formigas térmitas, as que inventaram os arranha-céus, e mais tarde, à noite, fatigados de tanto esplendor, a dormir em Petrópolis, na cidade arejada do Brasil, onde Gabriela Mistral viveu talvez as horas mais felizes e as mais desditadas de sua existência. Boa noite, Gabriela.

COLÔMBIA ESMERALDINA

Do restaurante de 46º. andar, em São Paulo – onde o almoço transcorria quase entre as nuvens –, aviões a jato ou mosquitos de quatro asas me sacudiram, levantaram e depositaram em Manizales.

Faz vinte e cinco anos que visitei a Colômbia.

Reconheço do alto sua linhagem cordilheirana, o entrecruzamento de montanhas e rios, vales e vapores: uma geografia de esmeraldas molhadas que sobem e baixam do céu.

Devo presidir um Júri de Teatro Universitário Latino-americano.

 O aviãozinho baixa numa pista de quatro metros de largura, entre dois abismos: o fio de uma navalha andina.

Manizales estava irreconhecível, moderna, crescida, limpa como nenhuma outra cidade.

Submergi no cenário cotidiano com teatro novo todos os dias do Peru, Brasil, Venezuela, argentina, equador, Colômbia. Teatro lírico ou chocarreiro, experimental ou satânico, popular ou intelectualizante. Em todo caso, vivo e vital, trabalhado e meritório. Passei uma semana no interior da Sala escura, vivendo com estranhos personagens, arlequins e andrajosos, esquizofrênicos e papis executivos.

A mim me agradou mais de que tudo uma peça brasileira tirada dos teatros de marionetes populares que percorrem o Brasil.

Os atores revivem em três atos os movimentos simplórios e a vampiresa, o negrinho sábio, o afazendado apaixonado, chegam até o céu suspensos de cordas inexistentes. Frescor e raízes de povo se reúnem nesta unidade teatral que mereceu o prêmio por unanimidade.

(Assim que regressei a Bogotá, uma conspiração palaciana deu a “Máscara de Ouro” a uma obra norte-americana, vomitivamente obsceno).

Minha vida em Manizalas prosseguia, de dia, pelas ruas, o teatro à noite: perseguido por muitíssimos caçadores de autógrafos entrei numa barbearia local para cortar o cabelo, e ali estive rodeado por cinquenta espectadores assinando livros e papeizinhos enquanto  o paciente cabeleireiro afastava cabeças para trabalhar com as tesouras.

De volta a Bogotá, a poesia principal da Colômbia, os Rojas, Zalameas, Carranzas, De Greif, Camachos e Castro-Saavedras, montam guarda a fim de impedir a curiosidade e os álbuns.

Renuncio a prosseguir para o México, com o amor que lhe tenho e o muito que ali me espera. Corre, porém, o sangue estudantil e para mim a Tocha Olímpica se apaga.

Por esses mesmos dias morre crivado nas montanhas colombianas um guerrilheiro solitário: chama-se Ciro. Para a biografia policial é um bandido. Para muitos, um herói. Um batalhão o encurralou e o rapaz morreu disparando. Grande tristeza entre a emoção da amizade e da claridade poética da Colômbia.

Quando me recuso a ser condecorado pelo senhor Lleras Restrepo, não faltam os que se dão por ofendidos.

Respondo: nada me separará do coração verde da Colômbia. Uma medalha mais ou uma medalha menos significa. Minha poesia continuará e celebrar-te, Esmeralda.

Em seguida, o Museu do Ouro Pré-colombiano, com suas máscaras, caracóis, borboletas, rãzinhas refulgentes. Nossa América enterrada vive aqui acusando os seus cristãos crucificadores. E sua milagrosa ourivesaria não tem voz: é um calado relâmpago de ouro. Oxalá houvesse, à saída do Museu uma grande tigela de ouro para deixar as lágrimas.

Amanhã voaremos para a Venezuela.


(Trecho extraído de “Para nascer nasci”, de Pablo Neruda).

quarta-feira, 21 de junho de 2017

UM APÓLOGO - MACHADO DE ASSIS


Machado de Assis

ERA UMA VEZ uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.
Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?


— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.

Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano.

Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


FIM

quinta-feira, 15 de junho de 2017

KID VINIL: O ÚNICO HERÓI DO BRASIL


Não devemos falar das personalidades ligadas ao rock, ou a qualquer outro segmento social ou cultural, apenas quando elas se vão. Mas também não podemos nos esquecer de prestar homenagens quando isso ocorre.

Recentemente perdemos o “personagem”, de tão extravagante que era, Kid Vinil: alegre, marcante e inconfundível.

Talvez ele não tenha sido uma unanimidade, mas muitos o consideravam como um verdadeiro mestre, o "professor". Controvérsias à parte, o que não nos resta dúvidas é que ele amava incondicionalmente a música: falava, cantava e vivia rock’n’roll.

Esse amor fez com que ele fosse um divulgador desse gênero musical no Brasil, isso em uma época em que não existia a internet! Eram poucas, senão raras, as publicações de rock no país.

Sempre presente no cenário musical, organizou shows de rock alternativo, punk rock e pós-punk, destacando-se anos 80.

Aficionado por todas as fases do rock, não apenas divulgou o underground internacional e nacional, mas também foi seu protagonista, ao criar a banda Verminose. Incentivador das novidades e garimpeiro de raridades, Kid regravou, com sua banda Magazine, a irreverente “Adivinhão”, de George Feedman, lançada originalmente em 1961, na época da Jovem Guarda. 



Além disso, foi apresentador dos programas de televisão Som Pop e do memorável Boca Livre, que passava na TV Cultura. Tornou-se também VJ da MTV e escreveu um livro chamado “Almanaque do Rock”.

No entanto, a fama veio mesmo nos anos 1980, com a Magazine e seus hits “Tic tic nervoso” e “Sou Boy”, clássicos do rock brasileiro.

E foi no palco que Kid Vinil se despediu do mundo.
No mês de maio do corrente ano, excursionando pelo Brasil, com outros músicos dos anos 80, Kid Vinil passou mal durante uma apresentação em Minas Gerais, sendo então hospitalizado e, posteriormente, transferido para São Paulo, onde veio a falecer aos 62 anos.


Mas o palco sempre será seu, Kid Vinil, o Herói do Brasil. (Paula Vanessa)

sábado, 10 de junho de 2017

IRACEMA - EBOOK

Periodicamente, o blog Verso, Prosa & Rock'n'Roll disponibilizará para download gratuito obras em formato eBook para leitores digitais do tipo Kindle e Kobo. As obras vão desde autores iniciantes até grandes clássicos da literatura. Veja o nosso catálogo clicando AQUI. Baixe o quanto quiser! (Os links para download estão logo abaixo das capas).